Olá amigos dançantes!
Tenho certeza que muito de vocês já se surpreenderam com palavras e ações de pessoas próximas, as vezes de forma positiva, outras nem tanto.
Pois o motivo deste post é contar para vocês algo que me deixou completamente encantada, o outro lado de uma pessoa extremamente talentosa, professor, dançarino, coreógrafo, músico e estudioso de sua arte e que agora descubro um excelente escritor, com uma linguagem simples, mas carregada de poesia, que faz reflexões profundas e comparações inusitadas sem ser retórico ou piegas.
Confesso a vocês que tenho um fraco pelas letras por isso talvez tenha ficado tão fascinada pelas linhas tão bem escritas do nosso amigo e colega, o pai do Salsa Project, Guilherme Rocha.
Peço licença a este meu amigo, para copiar aqui o texto que subtraí descaradamente de seu blog ” Eu que controlo meu guidom”, e que me deixou tão maravilhada. Para que todos os nossos leitores possam como eu, desfrutar deste outro lado do Gui Rôcha.
Segunda-feira, 18 de Maio de 2009
O silêncio de Carlos Bolacha
Ter um blog é bom quando se quer escrever sem a obrigação de escrever. Tudo que se faz sem cobranças aparece mais fácil, é mais natural e verdadeiro. Este post vem sem cobrança, vem pelas conversas sobre dança e pela tempestade que essas conversas causam em mim.
Falando sobre dança, mais especificamente sobre o Baila Floripa 2009, que talvez seja o maior evento brasileiro voltado para as danças de salão sem distinções de ritmo, venho destacar algumas das coisas que mais me chamaram a atenção e que fizeram refletir sobre a própria dança de salão e a sua aparição como produção artística.
Bem, no desenrolar das coreografias nas noites de espetáculo pude perceber o quanto as Cias tem se preocupado com a performance dos bailarinos. É notável, se comparado com os outros anos: os bailarinos voaram muito mais alto nesse Baila, giraram muito mais e em menos tempo, as pernas se entrecruzaram com mais rapidez, o grau de dificuldade dos lifts foi incomparável, os bailarinos estavam mais ágeis e fortes, a técnica transpareceu, os passos de efeito surtiram muito mais efeito, além de tantas outras coisas. Eu falo de uma maneira geral, sem citar a existência de muitas coreografias tipicamente de alunos, que são freqüentes desde o primeiro Baila em 2002.
O desempenho dos bailarinos visto nesse Baila Floripa jamais poderia ser imaginado há 7 anos atrás e eu fico pensando o quê nos espera para o Baila de 2010… sei lá,.. facões supersônicos, giros mirabolantes, pegadas a la Cirque de Soleil…
É claro que um bailarino virtuoso nos enche os olhos, prende – muitas vezes – a nossa atenção, nos faz querer ser eles próprios, nos surpreende. Quem já fez aulas de música, como eu que dediquei muitos anos a estudar piano, sabe o quanto impressiona tocar uma peça de Liszt ou de Mozart, é puro virtuosismo. São poucos que o fazem bem, e ouví-los, sem dúvida nos impressiona. No entanto, do outro lado do rio, existe também um Dorival Caymmi, que é um símbolo de lentidão e que com poucas notas faz uma música tão simples, mas tão simples, que acaba dizendo tudo! Daí eu me pergunto, mas o que é que o Caymmi tem?!
Nesse Baila Floripa eu vi Mozarts, Liszts e 1 (um) Caymmi: Carlos Bolacha. Já tinha ouvido falar nele, mas não tinha visto nada dele, nem coreografia, nem sua dança no salão. Sobre seu samba, posso falar que é diferente de muita coisa que eu já vi – um jeito de dançar aos pulos, como estouro de pipocas. Não é extraordinário pela sua forma, mas é impressionante pela sua espontaneidade, é verdadeiro. Caymmi fazia as canções daquele jeito porque ele era assim, era assim que via e pensava o mundo. Ninguém poderia imitá-lo porque aquilo tudo era tão representativo da figura que era, que só sendo ele mesmo. João Bosco é ele porque tentou imitar Caymmi e não conseguiu. Ana Carolina é ela porque tentou imitar João Bosco que tentou imitar Caymmi e não conseguiu. Graças a Deus cada um é o que é. E Bolacha não tentou imitar ninguém, é ele.
Mas isso ainda não é o sumo da laranja. Carlos Bolacha me chamou a atenção, e não só a mim, quando em uma das suas coreografias ele simplesmente vinha sozinho de uma daquelas lentas caminhadas – típicas da figura do malandro carioca – e parava no foco central do palco do teatro; até aí nada demais, mas ele parou. No meio de toda a performance e do virtuosismo do Baila, quando vejo, ele pára! Eu via aquilo tudo e não acreditava. Comentava com a Cacá que estava ao meu lado: “não acredito que ele parou mesmo…” Ele parou e ficou. Não sei por quanto tempo, talvez 1 minuto. A música acontecendo e ele parado no foco central, sensacional!
Aos poucos o público que estava em comportado silêncio começa a cochichar e todo aquele burburinho aumentava. É o dialogo entre artista e platéia. Não importa o que falavam, e sim que houve uma reação. O público não permaneceu passivo, ele estava fazendo parte da coreografia.
Mais tarde, nos outros dias da Mostra, muita gente comentava que o Bolacha queria mesmo era que as pessoas escutassem a música. De fato sim, a música fazia referência a São Jorge (ou Jorge da Capadócia na música), homenageado no dia 23 de abril, e sem dúvidas um hino, ou melhor, uma oração ao santo dos católicos ou ao orixá dos umbandas, mas isso não era tudo. Para mim, apesar da música, foi um momento de silêncio: o silêncio de Carlos Bolacha. A ausência de movimento me remeteu a um silêncio que quis dizer tudo.
John Cage, referência na performance artística e na música contemporânea compôs a primeira obra silenciosa chamada 4’33’’ em 1952. Nela os músicos permaneciam 4 minutos e 33 segundo sem uma nota sequer. A partir desse momento o público perguntava se aquilo que tinham acabado de presenciar era música. Era o silêncio dizendo tudo. Dessa forma é de se perguntar se aquilo que fez Bolacha era dança ou não. Muitos saíram de lá dizendo que não.
Consciente, ou não, o que interessa é que aconteceu, quem estava lá viu tudo. Bolacha de certa forma marcou a dança de salão por trazer o silêncio a ela e o silêncio sempre quer dizer algo. Na psicologia, na filosofia ou na religião sempre existe motivo pro silêncio. Bolacha acabou por citar Cage em sua coreografia, e que no meu ponto de vista tiveram os dois a mesma intenção: fazer com que cada espectador ganhasse um tempo para respirar e mudar o olhar do palco para si, como uma forma de auto-reconhecimento.
Dentro de um contexto de arte isso não seria surpreendente, mas estamos falando de dança de salão, aí já faz toda a diferença.



























