CANTINHO DO FLORIÃO

SAMBA – O Nome da Festa

A Cultura Samba

A palavra samba tem muitos significados. Designa diversos estilos musicais: samba raiado, batido, de terreiro, de embolada, enredo, de partido alto, canção, exaltação e de breque, por exemplo. Nomeia danças como samba de véio, de coco, de roda, no pé, de passista, de mestre-sala, duro ou de pernada e samba (de par). Pode, ainda, designar lugar de festa, mesmo que nem toque a música samba nesse espaço.

Diferentes influências compuseram essas manifestações. Dentre elas, a polca, a umbigada, o batuque, a valsa, o maxixe*5, o choro, a chula*10, o corso, as sociedades, a marchinha, a havaneira, o fandango, o lundu e até músicas, instrumentos e festas indígenas, sendo misturadas e remisturadas desde 1500, ano da chegada de Cabral.

A Origem do Nome

Muitos devem ter ouvido que o samba (de forma genérica) vem da África – o vocábulo teria surgido porque em Angola há uma palavra que significa umbigada. Devido às várias raízes, às diversas expressões culturais envolvidas e à carência de informações fidedignas no período colonial, confusões desse tipo são, de fato, muito freqüentes.

Devido a um grande número de teses divergentes geradas pelos estudiosos que se debruçaram sobre esse tema, definir a procedência desse termo não é tarefa fácil. Assim, escrevendo somente sobre a origem da palavra samba – não sobre as danças e as músicas, meu objetivo principal, com informações garimpadas em diversos desses estudos, é revelar possibilidades e curiosidades que tornem essa história ainda mais interessante e controversa*12.

Mama África – teoria africana

A história mais repetida pela maioria dos que crêem que o nome de nossas músicas e danças originou-se na África*13  conta que samba veio de semba, que quer dizer umbigo no dialeto quimbundo.

Encontramos vários outros autores sugerindo que esse vocábulo veio do continente africano, mas através de outros caminhos: samba pode ter vindo de muçumba, que é um chocalho; de “estar animado” no dialeto umbundo; da língua iubá ou banta na qual significa “pular ou saltar com alegria”; dos quiocos angolanos para quem samba é “cabriolar, brincar, divertir-se como cabrito”; dos bancongos (angolanos e congoleses), significando “dança em que um bate contra o peito do outro” e ainda segundo Francisco Guimarães, a junção de sam (pague) e ba (receba).

Dadas tantas conexões entre os povos latino-americanos, investigamos um pouco entre nossos vizinhos e encontramos o texto do pesquisador Nicomedes Santa Cruz contando que Samba-Cuque em quimbundo quer dizer “venha iniciar a dança”, o que deu origem à expressão samba-cueca – ou samacueca.

A. J. Macedo Soares, profundo conhecedor das línguas lá de Angola, afirma que “o samba em seu calor não significa dança, lá ninguém lhe dá valor”. Bernardo Alves nos informa que, na África, samba significa reza nos idiomas conguês e iunhaneca e “lavar o corpo” em Moçambique. Os dois estudiosos nos explicam que, por lá, a palavra samba era usada apenas com cunho religioso, que não representou e não representa música nem dança, mas convenhamos que isso não impediria que a palavra aqui ganhasse uma nova conotação.

Tem branco no samba – teoria européia

Mário de Andrade garante que o termo vem de um tipo de dança encontrada na Espanha do século XVI, a zamba (lê-se samba), e que os mestiços de índio e negro, eram chamados de zambo e zamba.

Na Andaluzia, utiliza-se a palavra zamra (lê-se samra) para definir um baile descrito como um ambiente festivo com bebidas, canto e dança cuja origem remonta a épocas pagãs. Outra possibilidade é que a palavra tenha derivado de zambra (sambra), que nomeia em castelhano antigo, segundo Susana Navalón, uma festa mourisca com música e algazarra – pensamento reforçado por Pedro Allende, chileno que afirma que a procedência do termo seja hispano-árabe: “estou convencido que nossa cueca ou zamba cueca tem sua origem na festa mourisca denominada zambra que se celebra ao ar livre”. E vai além: “o uso de bater palmas dos espectadores que rodeiam os dançarinos, se pratica tanto entre os mouros como entre os andaluzes”.

Outra citação sobre o tema conta que, no início do século XIX, originou-se ao som do violão o baile popular que depois ficaria conhecido no Peru como zamba antigo e que após assimilar ritmos africanos se transformaria em zamacueca, descendente direto da cultura espanhola e raiz de várias danças na América do Sul. No dicionário, lemos que zamba é baile popular, sinônimo de zamacueca, que, difundido em 1810, chega a nossos dias.

Na Argentina, temos a zamba folclórica, que, assim como a sambacueca, é dançada em duplas soltas com muitos sapateados.

Para coroar esse time de pesquisadores, vale a pena citar o comentário de Sérgio Buarque de Holanda que fala das influências de mouros e judeus, ambas reprimidas pelo poder monárquico e católico da época mas que teriam nos deixado marcas profundas, como é o caso da zambra*6.

Vermelhô – teoria ameríndia

No desfile de 1942, a Portela sagrou-se bicampeã cantando o samba de Alvaiade no qual a origem indígena do samba foi proclamada com todas as letras na Praça Onze*4. Há muitos estudiosos que concordam com essa idéia, e daí surge uma nova série de teses:

·           entre os tupi-guarani, por exemplo, “cadeia feita de mãos dadas” é samba – que também quer dizer, segundo Batista Caetano, ”dança de roda”;

·           na tese defendida por Teodoro Sampaio, o nome teria vindo de çama ou çamba, que quer dizer “dança da corda”;

·           dos índios Fulniôs, que têm em suas tradições mais antigas o ”samba de côco” ;

·           dos Xocós, que são exímios sambistas;

·           etimologia da palavra tupi sambaqui – depósitos de conchas, ostras ou mexilhões.

O maestro Batista Siqueira, no livro Origem do Termo Samba, afirma que vem de sambá e representa o ato de trocar. Referências do século XVII trazidas por ele indicam os Tapuias como responsáveis pelo aparecimento do vocábulo que significa o local onde o povo se reunia para festejar algum evento social: “inicialmente samba era […] um divertimento popular de grandes variedades nas ocorrências sociais. A tradição define samba desse modo: lugar onde come-se, bebe-se e dança-se”. O maestro entrou pelo nosso sertão  no início do século XIX e colheu do folclore local dezenas de músicas, que foram apresentadas a ele como sambas.

Há também a tese, muito bem fundamentada, do estudioso pernambucano Bernardo Alves. Em seu livro A Pré-História do Samba, ele explica que o termo nasceu da arte e da cultura indígenas: os Curumbas, do interior do Nordeste, e os Amocreves, que viviam próximo à Goiana (nos arredores de Recife), seriam os responsáveis por levar aos negros e brancos, em suas incursões de troca e comércio*15, o samba, dança tradicional indígena.

O livro – impresso em Lisboa em 1699 – Arte de Gramática da Língua Brasílica da Naçam Kiriri*11 traz texto do padre Luiz Mamiani em que a palavra samba é apresentada como sinônimo de cágado – um parente da tartaruga e que se chamava de sambahó*14 a festa em que os Cariris bebiam o suco fermentado da quixaba e comiam o cágado enquanto dançavam e cantavam músicas sobre aves e valentias ao som de viola*15, pandeiro, flauta, tamboril e maracá. Um dos documentos interessantes apresentados por Alves refere-se a uma pessoa que cantava e tocava o samba em 1837 no Recife.

Para completar essa linha de foco indígena, lembramos de Euclides da Cunha, que viu e ouviu samba nos sertões nordestinos*3 antes da virada para o séc XX.

Do Fim do Mundo – possibilidades mais remotas

Registro a existência do povo Sambas, que habita o oeste da ilha de Bornéo na Indonésia e ainda a existência da ilha Sambae no arquipélago de Sonda, na Oceania.

A festa e a mistura

O escritor cearense Manuel de Oliveira Paiva, em 1891, escreve o romance D. Guidinha do Poço, no qual um afamado violeiro, vendo o salão encher-se de dançarinos*7, comenta com outro personagem: “Essa fonção de samba só mesmo pa quem qué se metê na vadiação (…)”. A nossa literatura, desde a fase colonial, quase sempre registra a palavra samba com significado de uma forma de dança em povoados, vilas, terreiros de fazendas ou como manifestações de caráter folclórico em festas típicas, tradicionais ou, até mesmo, como canto de trabalho.

Riquezas, a mistura e a diversidade – traços fortes e indiscutíveis do brasileiro. Cabe, antes de seguir, reforçar que as formas de samba (música e dança) feitas no Brasil são brasileiras.

Muitas vezes ouvi meu avô cearense, descendente de portugueses e holandeses, chamar: “vamos pro samba?”. Era um convite para ir a um bar, um forró ou festas de todo tipo. O músico Caio Pontual reforça a idéia do samba com sentido de festejo contando que, em Pernambuco, na região da zona da mata, existe a expressão “sambar maracatu”. Essa atitude especialmente comum no nordeste é muito anterior ao século XX e perdura até hoje.

É comum a um grande número de pesquisadores a idéia de que samba já foi sinônimo de local de festa e que só recentemente passou a denominar um ritmo – ou vários, já que na denominação samba cabem variações tão diferentes entre si como o samba canção, enredo, rock, reggae, o samba-lenço, o samba-rural, samba-batido, jazz, sambalanço, rumba, sambolero, chorinho, pagode e o partido alto. O músico Gilberto Gil reitera essa linha*8 em texto divulgado em sua página.

Denominar um ritmo pelo nome do local de festa onde ele ocorre é muito mais comum do que se pode pensar: aconteceu também com o forró, a kizomba, o zouk, a milonga e o pagode*2.

O ideal de identidade nacional (pregado no início do séc. XX por defensores da cultura mestiça como Gilberto Freire e a necessidade de integração da pátria no Estado Novo) certamente ajudaram na difusão do samba carioca, mas vale ressaltar que, muito antes disso, com limitados meios de comunicação, a palavra era usada por toda América Latina há mais de um século. Isso se deve, provavelmente, ao fato de diversos povos pelo mundo, desde tempos remotos, possuírem expressões parecidas para local de diversão ou coisas ligadas à dança.

Sambas do Brasil – patrimônio da multifacetada cultura brasileira

Após expor tantas possibilidades da origem da palavra samba e estando todos nós cientes das inúmeras manifestações com esse mesmo nome, penso ser fácil sugerir que ninguém deva pensar no samba como se fosse um e muito menos que todos os “sambas” sejam tratados como privilégio exclusivo de uma cultura ou raça e ainda que tomemos o devido cuidado, definindo muito bem sobre qual das manifestações referimo-nos ao falar ou escrever para aumentar as chances de se chegar a conclusões razoáveis.

Luís Florião – Professor e pesquisador especializado danças brasileiras
Tel. (005521) 85340306 ou 25687823;

almad@dancecom.com.br e floriao@ig.com.br

http://www.dancadesalao.blogger.com.br/

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2 Respostas para “CANTINHO DO FLORIÃO

  1. Pingback: 2 de Dezembro, hoje é Dia Nacional do Samba! « Dança Catarina

  2. gostaria se saber se existe algum estudo que fale sobre os seguintes temas: dança de salão (condução, musicalidade, expressão, etc)

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