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Cantinho do Florião – A polêmica História das Danças Sociais no Brasil

          Alô, Dançantes!

O Cantinho do Florião está de volta!

Para quem não lembra ou não leu os anteriores, é um espaço que  traz para vocês novidades sobre o que acontece na dança de salão, um aspecto histórico interessante ou uma dica bacana – tudo para que o leitor possa conhecer melhor e aproveitar ao máximo essa atividade tão saudável e divertida que é a dança de salão. Quem assina é o professor Luís Florião, pesquisador e atual presidente da Andanças – Associação Nacional de Dança de Salão.

O texto de hoje é super bacana, um passeio sobre a história  das danças de par no Brasil e o bicentenário das aulas de dança de salão – 1811 – 2011. Não deixem de ler!! 

A Cultura Samba

A palavra samba tem muitos significados: danças juntas, separadas, estilos musicais e locais de festa, mesmo que nem toque a música samba nesses espaços. Diferentes influências compuseram essas manifestações, sendo misturadas e remisturadas desde a chegada de Cabral.

As Origens da Dança Samba de Par

Muitos devem ter ouvido que o samba, de forma genérica (todas as danças e todas as músicas), veio da África. Essa colocação, apesar de freqüente, não é verdadeira, pois se dito assim, não se levou em conta as muitas expressões culturais envolvidas, generalizando o que precisa ser individualizado, como é o caso das danças sociais.

Danças Européias

No século XI já havia registro de dança de par e, no século XII, foi encontrado na França o princípio da metrificação da dança de corte, mas foi na renascença que ela desabrochou plenamente como atividade social. “A dança de salão, como conhecemos agora, nasceu com os primeiros mestres de dança da renascença, que arranjavam o entretenimento para os duques e príncipes. E seu desejo de levar essa diversão para além dos muros dos palácios fez nascer o ballet…” (Dalal Achcar)

Entre 1400 e 1650, destaco a dança baixa, a pavana, a volta e a gavota. Depois tivemos minueto, fandango, contradança, quadrilha ou lanceiros, mazurca, valsa, schottisch, polca…

Cada uma delas deixou marcas, como nos conta a pesquisadora Eliana Caminada: “As demais danças a partir de 1650 até 1750 (…) influenciaram, reconhecidamente, nossas danças. Tão enraizadas ficaram em nossa cultura que até mesmo no carnaval deixou marcas: “O minueto, por exemplo, você ainda encontra nas movimentações do mestre-sala e da porta-bandeira.” – dentre tantas, ressalto a polca e a valsa devido à influência para as danças de par atuais.

As Danças dos salões no período Colonial no Brasil

As danças praticadas aqui vieram de diferentes países, principalmente de Portugal, Espanha, Inglaterra e França. Os espanhóis foram mais influentes do que muitos podem pensar, especialmente no período de 1581 até 1640, quando Portugal e, conseqüentemente o Brasil, pertenceu à Espanha. Veio de lá, por exemplo, a dança fandango – cuja coreografia é até hoje usada no jongo. Vejamos o que comenta Luís Edmundo: “Nos salões senhoriais do Rio colonial, por ocasião das festas, tocava-se apenas música de dança, com rabeca e cravo, e dançava-se o minueto, mas um minueto português, de requebros e sapateados.”

A época de D. João VI

Com a chegada da Família Real e a transformação do Rio de Janeiro em sede do Reino Unido (Brasil, Portugal e Algarves), a cidade passou por grandes modificações.

O período de permanência da corte no Brasil (1808-1821) foi ímpar para o país, considerando que marcou, por exemplo, a liberação para a instalação das primeiras fábricas, o fim das limitações de impressão e de obrigação de comércio exclusivo com Portugal. Houve um grande incremento da economia com a criação das fábricas, de órgãos públicos e a reformulação urbana, gerando muitos novos empregos e possibilitando o acesso de bens de consumo e culturais a muito mais pessoas – considero esse, o início do Brasil como nós conhecemos.

Foi também um momento de grande expansão no interesse e na oferta em cultura – só para se ter uma idéia, com a chegada de Dom João uma orquestra inteira aportou por aqui. O imperador, que tinha forte ligação com a cultura, incentivou, em especial, a música e a dança.

Houve então um grande incremento na importação de instrumentos, principalmente o piano.

Pouco tempo depois chega o mestre de dança da Família Real, Pedro Colonna – Ele não pôde vir junto com D. João, como nos conta Nireu Cavalcante: “O velho mestre de dança da família real, Pedro Colonna, não compareceu ao embarque pela grande brevidade da partida e já não haver lugar para sua esposa e dois filhos.”

Tivemos, nesse início do século XIX, uma onda de visitantes: músicos, comerciantes, pintores… Foi uma época de festividades opulentas, intensificando, significativamente, a vida social do carioca.

Mary Del Fiore confirma: “No século 19, o país começava a sair de profunda sonolência, sobretudo nas áreas urbanas. A vinda da família real em 1808 introduzia hábitos sociais que foram se multiplicando entre as várias camadas sociais. Recepções, casamentos, balizamentos, cortejos, jogos, óperas, enfim o luzir dos fidalgos, davam modelos e incitavam imitações. Construíam-se casas nobres e palácios eram rapidamente recheados de imensas coisas. Móveis eram importados da Inglaterra assim como o piano…Importavam-se também professores de dança e canto, capazes a ensiná-las a animar bailes e saraus da cidade”

A dança de salão é uma das áreas de maior crescimento. “Ao lado da música, a dança foi uma constante, fosse no teatro, fosse nas celebrações públicas e privadas, tornando-se também elemento de sociabilidade. Era comum algumas pessoas representarem tipos de dança para homenagear a Real Família.” (Anelise Oliveira)

São diversos os relatos sobre a importância da dança social no período e sobre os mestres de dança, que foram importados para dar conta da demanda – muitos se radicaram no Brasil. Professores como Luiz Lacombe, que chegou em 1811, e colocou nesse mesmo ano, na Gazeta do Rio de Janeiro em 13 de julho, a referência* mais antiga sobre aulas de danças sociais no Brasil que encontrei até o momento.

* Divulguei diversas vezes para os profissionais da dança sobre os 200 anos de aulas de dança de salão no Brasil, sendo que a que causou mais impacto foi em audiência pública na ALERJ em 01/12/09. Em seguida, com a ajuda de Antônio Aragão do Jornal “Falando de Dança” que buscou na Biblioteca Nacional a propaganda que citei, comprovamos irrefutavelmente o fato. Esse documento foi importantíssimo no processo de transformação do ritual da dança de salão como patrimônio imaterial do Rio de Janeiro.

O sucesso foi tanto que, em seguida, Lacombe trouxe seus três irmãos para auxiliar nas aulas. Wanderley Pinho ressalta essa importância: “As danças se aperfeiçoavam com mestres entendidos. Luiz Lacombe não tinha mãos a medir e multiplicavam-se salões e saraus onde suas discípulas exibiam passes e passos de bem aprendidas graças coreográficas.” E “Os cabeleireiros e os mestres de danças” (referem Ferdinand Denis e Hipólito Taunay) gozavam de grande prestígio e maiores proveitos. Enquanto o danseur se buscava em uma carruagem luxuosamente atrelada e se remunerava bem, o professor de línguas tinha que marchar a pé daqui ali para lições pagas com usura.”.

Segundo Delso Renault, “A Gazeta do Rio de Janeiro publicava, em 1813, outro anúncio, desta vez sobre a instalação dos primeiros colégios leigos para meninas internas, como o de “D. Catharina Jacob”. A freqüência e regularidade desses anúncios, informando sobre escolas para moças, com ensino de trabalhos manuais, línguas, dança e música, confirma a importância para a sociedade da época.”

Cresciam também as criações das sociedades de recreio que tinham como objetivo reunir “pessoas de certa representação pública” adotando, como passatempo, jogos música, dança…

Interessante saber que já havia nesse momento rituais claramente definidos e que o famoso “estatuto da gafieira” já estava em uso: “Todo sócio que não se soubesse comportar, seria excluído da sociedade, não podendo mais voltar” e que haviam mestre salas que conduziam os bailes.

Maria Beatriz Nizza da Silva nos informa: “Qualquer baile e, principalmente aqueles a que assistiam membros da família real, obedecia a um ritual claramente definido pela etiqueta da época” e “os donos da casa que indicavam aos cavalheiros as damas com quem deveriam dançar. Nos bailes e saraus desse período dançou-se muita quadrilha, minueto, contradança e fandango.”

Valsa – A Rainha das Danças

Segundo a professora Eliana Caminada, a primeira notícia sobre dança de par abraçado, se deu em Paris em 1536 e o Compêndio Técnico Ilustrado de Danças Gaúchas de Salão do MTG nos traz outra referência bem antiga de dança de par abraçada, provavelmente de umas das danças que resultaram na valsa como conhecemos – “Curt Sachs registra que: “Maige viu a prática desta dança em 1580, enquanto realizava sua viagem para a Itália e a descreveu, em seu diário, expressando que os bailarinos abraçavam-se tão estreitamente, pondo-se mutuamente as mãos sobre as costas, que os rostos encostavam-se.” (reparem que isso é bem mais abraçado que a valsa) É provável que o abraço fechado já estivesse presente bem antes disso nas danças que a precederam – sua origem mais remota pode ter sido anterior ao século XIII.

A valsa foi vista com desconfiança por muito tempo, mas acabou conquistando o posto, nos diversos extratos sociais, de rainha das danças (sociais).

No Brasil aconteceu o mesmo – na festa de aniversário do príncipe herdeiro em 1820 se deu o seguinte, como nos conta Wanderley Pinho: “Tinha-se bem ouvido falar da Valsa alemã, mas o fato de abraçar as damas era tido como inconveniente.”

Segundo Bruno Kiefer, as origens dessa modalidade que reinou soberana nos salões europeus na primeira metade do século XIX, são as danças rústicas alpinas, destacando-se o Ländler.

Na década de 1770 se notabiliza em Viena, conta Bruno Kiefer. Segundo Eliana Caminada, em 1782 foi escrito o primeiro tratado e em pouco mais de trinta anos se tornou um grande sucesso mundial.

Para reorganizar o mapa da Europa recém libertada de Napoleão, em 1815 foi promovido um congresso em Viena onde a dança foi atração no baile de gala realizado na ocasião – era o que faltava para ela ganhar o planeta tornando-se, provavelmente, a dança de sociedade mais conhecida no mundo (só perdendo status na década de 1950). Era tudo de bom, como nos conta a pesquisadora Caminada: “Goethe afirmava em Werther: nunca me mexi tão ligeiro. Já não era mais um ser humano. Ter nos braços a criatura mais adorável e valsar com ela, como o vento, de maneira que tudo ao redor se desvanece…”

Câmara Cascudo fala da popularidade da dança valsa por aqui: “No Brasil, no primeiro império e segundo, a valsa era dançadíssima, e o povo gostou de seu ritmo.”

Lentamente, a valsa (música e dança) foi se abrasileirando. O processo se completou na segunda metade do século XIX. A música se moldou a todas as áreas – desde a popular à erudita, foi gravada por Villa-Lobos, Carlos Gomes, Francisco Mignone. Ao mesmo tempo era executada por chorões ou em sanfonas nos mais longínquos grotões desse país gigante.

A moda da valsa, além de ajudar a difundir as danças sociais, nos trouxe a base principal do samba de par e da lambada do Rio de Janeiro, também chamada de zouk brasileiro.

No fim dos anos de 1830, havia muitos professores e eventos direcionados aos diversos grupos sociais, no Jornal do Commercio de 12/10/1840, podemos ver um exemplo: “Lições de Danças. Tendo chegado a esta corte Philipe Caton e sua mulher, têm a honra de participar ao respeitável público que pretendem dar lições de dança tanto em sua casa como em casas particulares; também darão lições em um ou dois colégios; advertem que ensinam todas as danças de costume e os mais bonitos boleros de sala, minuetos de diferentes modos como se usa em Montevidéu e Buenos Aires…”.

Stanley J. Stein reforça essa idéia: “Havia um médico, um professor de dança e costureiras entre os funcionários da fábrica.”

Marco Perna nos traz outra informação relevante: “Em setembro de 1841, Milliet dirigiu sua orquestra de bailes, oferecido ao imperador D. Pedro II, por sua coroação, pela Sociedade Assembléia Estrangeira, com a presença de mais de mil pessoas. Começou com contradanças francesas e, em seu decorrer, alternaram-se quadrilhas e valsas.” João Cecimbra Jacques, citado por Ítalo Rodrigues: “Entre as altas classes, o fandango, que até pelos anos  de 1839 e 1840 ainda  era muito usado, foi sendo substituído pelas danças vindas da Europa, como o ril, a gavota, o sorongo, o Montenegro, a valsa, e mais tarde as polcas, os chotes, as contradanças, as mazurcas e, finalmente, as lindas havaneiras espanholas, expressão musical do langor e dos requebros.”

A Polca

Nesse já movimentado mercado, chega a polca, dança rústica originária da região da Boêmia, que se espalhou rapidamente pela Europa, tomando também de assalto a terra Brasilis.

O maestro e musicólogo Batista Siqueira, baseando-se em notícia do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, data de1844 achegada da polca ao Brasil, tendo sua estréia oficial em 1845 com estrondoso sucesso – conforme nos informa Luis Câmara Cascudo: “O casal Caton, na noite de 03/07/1845, dançou, no Teatro São Pedro, a polca pela primeira vez no Brasil. O sucesso foi tamanho que três dias depois tiveram que abrir curso de polca.” De todas as danças trazidas ao Brasil, foi a que mais se incorporou aos nossos costumes.

Entre a grande quantidade de informações relativas à polca, ressalto que, num determinado momento, a moda era tão forte que motivou a criação de uma entidade voltada para sua prática, a Sociedade Constante Polca. Ela foi citada por Machado de Assis, um de nossos maiores escritores, em oito de seus livros; deu nome a surto de dengue e D. Pedro II, figura fácil nos bailes, em especial os promovidos pelo casal Conde d’Eu e Princesa Isabel em sua “choupana”, hoje conhecida como Palácio Guanabara, adorava a polca. Podemos observar como estava a moda pelo exagero do jornal humorístico “Charivari”: “se dançava à polca, andava-se à polca, trajava-se à polca, enfim tudo se fazia à polca” e de Machado de Assis: “A polca é eterna, enquanto não houver mais nada, nem sol, e tudo tornar às trevas, os últimos dois ecos da catástrofe derradeira usarão ainda, no fundo do infinito, esta polca, oferecida ao criador: Derruba, meu Deus. Derruba.” Essa aceitação, como nos informa Arthur de Oliveira, “chegou a atingir o meio rural, criando um tipo de polca sertaneja, cujo caráter melódico e rítmico se afasta do original estrangeiro, e um outro tipo denominado puladinho”. Sua base principal está até hoje na maioria das nossas danças: lambada, bolero, forró, samba, vanerão…

Polca Brasileira – nossa primeira dança de par

Influenciada por outras danças como a havaneira, Shotisch, mazurka e o lundu (já depois de ter absorvido a coreografia do fandango europeu) gerou ao final de alguns anos o que foi chamado de polca brasileira e a classificação como a primeira dança de par genuinamente nossa, como nos apresenta Alexandre Gonçalves Pinto: “A polca é como o samba, uma tradição brasileira. Só nós que Deus permitiu nascer debaixo da constelação do Cruzeiro do Sul, a sabemos dançar, a cultivamos com carinho e amor. A polca é a única dança que encerra nossos costumes, a única que tem brasilidade…” Exageros da paixão à parte, demonstra como se sentiam alguns cultores em relação a essa nova versão da polca.

Mônica Veloso no livro “Que Cara o Brasil Tem?” parece concordar com essa tese escrevendo que a polca é de tradição africana. Considerando que a polca original chegou da Europa, concluo que se trata da polca brasileira, com passos diferentes (balão caindo, saca-rolha, carrapeta, cobrinha…), muita proximidade, os volteios e quebradas do que foi nesse momento considerado brasileiro.

Dança Fandango representada em quadro onde o alemão Rugendas chama a dança Fandango de Lundu.

Tango ou Tango Brasileiro

“Como resultado da fusão da polca já nacionalizada com as danças espanholas (zarzuelas, tangos andaluzes e habaneras… Desta feita, o tango brasileiro se tornaria o mais popular dos gêneros entre 1870 e 1920. É importante citar, que ao estudar os tangos, Augusto (1996, p.37) deixa claro que nele existem mais traços do gênero da habanera do que do tango de origem erudita espanhola, e que algumas variantes em sua denominação estavam frequentes nos tangos do período de1870 a1920 como, por exemplo, poderiam vir simplesmente como tango, ou tango brasileiro, tango característico, tango carnavalesco, tango de fado e até tanguinho, obtendo estas designações dependendo do caráter derivativo de cada peça.” (Carla Marcílio)

Frequentemente “Olhos Matadores” (1871) aparece como nosso primeiro tango. Algumas outras referências precisam, no entanto, ser observadas como um tango de Gomes Cardim de 1865 e outro de Lucien Boucquet de 1863. O primeiro tango da Argentina parece ser o “El Choclo”, de 1893, se assim for, nosso tango, tanto enquanto música quanto como dança, é bem anterior aos dos nossos vizinhos.

A dança tango foi considerada imoral e perseguida. Há uma grande confusão em relação às danças maxixe e tango já que ambas tinham caráter sensual e incomodavam aos que lutavam pela moral e bons costumes.

O documentário Maxixe – a Dança Perdida apresenta um dos diversos registros dessa perseguição, culminando com a proibição pela igreja: “Sua eminência o Sr. Cardeal Arcoverde, representando a Egreja brazileira, condemnou o tango (brasileiro), por ser uma dança licenciosa, entretanto… Se o Santo Padre soubesse o gosto que o tango tem, deixaria o Vaticano pr’a dançar tango também! ” ironiza charge de Stroni em o Malho de 31/01/1914.

“Chiquinha Gonzaga deu ao tango brasileiro a sua preferência e foi a harmonia incomparável de um de seus tangos – o famoso Gaucho ou Corta-Jaca – que possibilitou à música brasileira, ter acesso oficial à aristocracia.

É conhecido o episódio de Nair de Teffé – esposa do presidente Hermes da Fonseca – tocando ao violão, o Corta-Jaca, de Chiquinha Gonzaga, nos salões do Palácio do Catete, em 26 de outubro de 1914. Isto provocou um escândalo recriminado até por Ruy Barbosa.” José Maria Campos Manzo

E foi defendido no Jornal do Commercio em 1914, como nos conta Jota Efegê: “Nessa terra de Santa Cruz, o Tango não é invasor imprevisto, é residente antigo e familiar; não é o estrangeiro, é o patrício;… o tango, o nosso tango, que sempre gozou de liberdade de saracotear, mais útil que a liberdade de pensar, estranhará esse rigor agora.”

No início do século XX, era comum a confusão com o tango argentino (com o desenvolvimento do tango nos países vizinhos como Uruguai e Argentina, foi chamado também de tango brasileiro).

Ernesto Nazareth (o rei do tango) e Chiquinha Gonzaga foram os principais representantes desse gênero musical brasileiro.

Choro

A música choro foi uma forma peculiar brasileira de interpretar os diversos ritmos musicais da época que acabou se tornando uma das nossas mais importantes criações e uma das mais bonitas músicas do mundo.

Maxixe

Assim como com o tango, acontece no último quartel do século XIX e ficou igualmente conhecida como a dança proibida. Foi também considerada imoral e perseguida.

Segundo o documentário Maxixe – a Dança Perdida, foi proibida de ser executada por Hermes da Fonseca em 1907, Ministro da Guerra, nas solenidades de mais pompa.

Em geral, usamos danças antigas ou recicladas para dançar as músicas recém criadas. O maxixe ter nascido primeiramente como dança é quase uma unanimidade entre os pesquisadores. Dançava-se à moda maxixe, músicas como polcas, schottishs , mazurcas, tangos e habaneras.

Segundo Emanuel Carneiro, “deveu-se principalmente à vontade de se dançar, de forma mais livre, os ritmos em voga na época, principalmente a polca.” E na opinião de Tinhorão, reforçando o conceito da polca como dança nacional, o maxixe, foi o “esforço dos músicos de choro em adaptar o ritmo das musicas à tendência dos volteios e requebros de corpo com que mestiços, negros e brancos do povo teimavam em complicar os passos das danças de salão. Nesse sentido, o maxixe representou a versão nacionalizada da polca importada da Europa…”.

Sobre o Nome da dança maxixe, Jota Efegê, em suas pesquisas, encontrou uma grande variedade de possibilidades, mas nada de conclusivo: “Villa-Lobos, um dos nossos maiores músicos credita o aparecimento do nome a um indivíduo apelidado de Maxixe. Ele dançou diferente em um carnaval na Sociedade Estudantes de Heidelberg – as pessoas passaram a dançar como o Maxixe, daí o nome.” Tinhorão acredita na relação do maxixe ser um fruto comestível comum nos quintais da cidade nova que não tinha nenhum valor com aquela dança na visão de alguns. Na Gazeta da Tarde de 29/11/1880, tivemos a que é, provavelmente, a primeira referência escrita dessa dança: “U.R. – Primeira Sociedade do Catete – Poucas machicheiras… grande ventania de orelhas na sala. Parati para os sócios em abundância. Capilé e maduro para as machicheiras não faltou, serviço este a capricho do Primeiro Orelhudo dos Seringas – O poeta das azeitonas.” (U.R. foi traduzido pelo pesquisador como União Recreativa). Em 1881, O Globo Ilustrado, do Rio de Janeiro, publica o nome maxixe como sinônimo de forrobodó e chinfrim, e significando baile em “habitação modesta””

Homens de todas as classes iam à Cidade Nova, onde havia prostitutas e as freqüentadoras (não profissionais da noite) eram muito mais liberais.

Nesses ambientes, ocorriam intensas trocas. Os visitantes mostravam passos das danças recém chegadas ao Brasil e levavam de lá movimentos na versão dos mais pobres. Tinhorão nos dá conta da proximidade entre as classes, no que se refere às danças nesse momento era maior do que se pode supor: “Transformada a polca em maxixe… para atender ao gosto bizarro dos dançarinos das camadas populares da Cidade Nova, a descoberta do novo gênero de dança chegou ao conhecimento das outras classes sociais do Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX, quase simultaneamente com a sua criação.

E os veículos para a tomada de conhecimento pelas classes mais elevadas seriam os bailes das sociedades carnavalescas, a atuação dos pianeiros, os quadros de canto e a dança do teatro de revista. As revistas teatrais traziam quase sempre o maxixe como atração e os dançarinos apresentavam com surpreendente diversidade.

As Gafieiras

Considero não ser adequado chamar essa dança de gafieira, que é o espaço físico, um dos locais onde o samba foi (e é) praticado. Bailes vêm ocorrendo em sociedades, clubes, cafés, teatros, confeitarias, cassinos, hotéis, residências, dancings… portanto apesar de ser relativamente comum, não cabe usar nem mesmo o nome samba de gafieira já que assim teríamos o todo pela parte.

Somente um dos estilos da dança samba, pode ser chamado de samba de gafieira, o que é praticado pelo grupo “Os Dez Mais da Gafieira” – que é o estilo mais próximo do maxixe.

Samba, o nome da dança

Renato Vivacqua nos informa que samba por muito tempo significava festa: “Naquela época (início do século 20) samba era uma espécie de festa com dança. Dizia-se vou dar um samba lá em casa. A partir do (amaxixado) “Pelo Telefone” (que, diferentemente do que se divulga freqüentemente, não foi o primeiro samba gravado) ficou conhecido como gênero musical” – e em seguida como dança.

Na década de 1920, o nome da música maxixe muda para samba e o nome da dança acompanha (fato muito parecido, nesse início de século XXI, com o que está acontecendo com a dança lambada mudando de nome para zouk como consequência do fim da música lambada).

O samba (de par) é uma dança carioca e, na minha opinião, deve ser chamada pelos que se divertem com ela e, especialmente, pelos que trabalham com ela, como ela é chamada no Rio: samba.

Dança Brasileira Fora do País

A forma brasileira de dançar o Lundu já havia circulado por Portugal, mas o tango e o maxixe chegaram com outro status e ganharam a Europa. No fim do século XIX e início do século XX fizeram grande sucesso, especialmente na França. O principal responsável por levar nossas danças para Paris foi Antônio Lopes de Amorim Diniz, o Duque, um dentista que recebeu o apelido pela elegância de sua dança. Interessante saber que aqui, Duque não era unanimidade, já que para alguns, o que ele dançava era demasiadamente estilizado.

Nossa dança tinha múltiplas influências e primava pela vivacidade. O que não a impediu de ser confundida por alguns historiadores europeus com o tango espanhol e a habanera.

Em geral, os nossos fazeres culturais precisam de aprovação externa para serem aceitos por aqui. Aconteceu com o maxixe, com a lambada de Porto Seguro, já está acontecendo com a lambada do Rio de Janeiro (zouk brasileiro) e deve acontecer muito em breve com o samba social e com o forró – refletindo em um maior interesse pelos brasileiros (tenho feito, desde 2004, viagens freqüentes ao exterior para difundir as danças brasileiras, estamos cada vez em mais países e percebo que elas estão cada vez mais prestigiadas).

Concluo, citando a historiadora, dançarina, pesquisadora de dança de salão e antropóloga Jussara Vieira Gomes: “Após a proclamação da república, o gosto pelos bailes continuou forte, entre os cariocas, tornando-se cada vez mais populares e freqüentes, a ponto do consagrado poeta Olavo Bilac comentar, num artigo de 1906, para a revista Kosmos: “…no Rio de Janeiro, a dança é mais do que um costume e um divertimento; é uma paixão, uma mania, uma febre. Nós somos um povo que vive dançando.”

Luís Florião – especialista nas principais danças de par brasileiras: samba, forró e as lambadas (de Porto Seguro e a do Rio de Janeiro – também chamada de zouk brasileiro), professor e pesquisador.

Só será permitida a utilização desse texto (na íntegra ou em parte) com a autorização do autor.

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