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Ensaio – o amor não diz se é para sempre, o filme de Tânia Lamarca abre as cortinas da Dança para o cinema nacional

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Intenso, envolvente, visceral, apaixonante, o novo filme da cineasta catarinense, Tânia Lamarca, chega para lavar a alma de todos os amantes da arte da dança e encher de orgulho nós, dançantes catarinenses, afinal este deslumbrante espetáculo cinematográfico que reúne dança, dramaturgia e música foi quase inteiramente rodado na nossa Santa e bela Catarina (com algumas cenas em Laguna e algumas em Buenos Aires) e tem como palco o cenário intimista de uma Florianópolis invernal. “O tom, a atmosfera das cenas downloadrodadas nos interiores tinham que dialogar com a paisagem invernal das dunas, lagoas, mares e montanhas lá fora, tinham que abraçar a solidão e as idiossincrasias das personagens”, enfatiza a diretora e produtora Tânia Lamarca.

É essa visceralidade, essa intensidade de sentimentos que tecem o enredo do longa Ensaio – o amor não diz se é para sempre. A obra se descortina diante de nossos olhos extasiados apresentando uma visão existencialista, das relações interpessoais que gravitam no mundo circundante em que o arguto olhar da diretora, uma observadora reflexiva do tecido social, explorou com extrema sutileza  na construção do filme, deixando emergir os dramas secretos e evocando sentimentos próprios da natureza humana na arquitetura dos demais personagens integrantes da companhia de dança – produtor, diretor, bailarinos e camareira.

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Depois que o mundo conheceu o balé clássico e os grandes teatros com Natalie Portman e seu “Cisne Negro” (2010), de Darren Aronofsky, a diretora Tânia Lamarca nos apresenta a sua visão do mundo da dança e dos grandes espetáculos em “Ensaio”, uma produção com nível técnico, artístico e qualidade que não deixa nada a dever ao americano, ao mesmo tempo em que trabalha uma estética e enfoques completamente diferentes.

 Ensaio-_Lavinia_Bizzotto_-_still_Cristiano_Pr13O filme se desenrola em torno de Eva (bailarina contemporânea, Lavínia Bizzotto), personagem focada na sua carreira e na expectativa de dançar a história de Anita Garibaldi que, por ardil do destino, vive uma tórrida paixão secreta por Daniel (Bruno Cezario, bailarino brasileiro de reconhecimento internacional), sedutor bailarino argentino que interpreta o papel de Garibaldi no espetáculo Amores Raro, colocando em xeque o sonho profissional, o ápice da carreira por qual tanto buscou com determinação. Durante os ensaios o casal de bailarinos extravasa na dança, no vibrante movimento corporal, todo o seu tormento e conflitos pessoais: Eva, o drama da paixão, o enfrentamento de uma gravidez indesejada e a difícil decisão do abortar – sonhos e vida, e Daniel, a inesperada gravidez da parceira que faz emergir a dor de ser uma das crianças nascidas nos calabouços da ditadura militar argentina. Uma história que o bailarino esconde de si mesmo, por não saber quem ele é de fato, que não verbaliza, apenas dança numa entrega absoluta, trazendo à cena o que o coreógrafo Renato Vieira conceituou como “a dramaticidade da condição humana”.

“Trabalhamos sempre focados em evitar o explícito. Dança, música e dramaturgia tinham que se permear numa sutil configuração, pois a história, delicadamente, não se interessa em justificar isso ou aquilo. O filme é a vida acontecendo, se movimentando, tão somente”, esclarece a diretora e produtora, Tânia Lamarca.
Tânia Lamarca na direção de "Ensaio" com a atriz Lavinia Bizzotto

Tânia Lamarca na direção de “Ensaio” com a atriz Lavinia Bizzotto

 Em um dos momentos mais arrebatadores do filme, a coreografia da “morte de Anita”, a performance dos bailarinos Eva (Lavínia Bizzotto) e Daniel (Bruno Cezario) é simplesmente deslumbrante. O foco intenso de luz centrado nos bailarinos dançando, enquanto o restante do cenário permanece nas sombras, numa inspiração da arte pictórica do italiano Caravaggio (1571-1610) causa impacto, emociona. A atriz bailarina Lavínia Bizzotto dança impregnada pelas personagens de Eva e Anita como se uma fosse extensão da outra ou vice e versa. Dança o limite da vida das suas personagens, fortemente e suavemente, como uma deusa, ou melhor, como a musa da dança Terpsícore. Sua dança é mesmo de tirar o fôlego.

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É, sobretudo, um filme com dança contemporânea, forte e expressiva, na sua manifestação coloquial, na sua linguagem corporal cênica e dramática que supera a palavra no diálogo dos personagens, sobressaindo a imagem. Aqui, mais do que nunca, dançar é vida com toda a transversalidade possível entre seres humanos e sentimentos que se entrecruzam, não necessariamente de forma oblíqua. A trilha sonora original é de Alberto Heller e as coreografias de Renato Vieira e Bruno Cezario.

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O cinema brasileiro finalmente ganha um belíssimo um longa-metragem centrado no mundo da dança com qualidade e padrão entre o que há de melhor nas produções cinematográficas mundiais.

Ao apagar das luzes do cinema tem-se a sensação inebriante de mergulharmos no fascinante mundo da dança capturado através de uma proposta ousada, livre de amarras e julgamentos, quase que uma jugular exposta de onde vertem sentimentos tão profundos e enraizados que mantém hipnotizado o público fascinado com o vocabulário poético expresso na magia da dança sensual e erótica de Eva/Lavínia/Anita, de seu parceiro-amante Daniel/Bruno/Garibaldi e na trama que num crescendo envolvente faz surgir uma simbiose, um fusão dos sonhos e desejos de três mulheres em um único corpo na vivência intensa do amor romântico ou na sua desconstrução, apontando outras formas de amar, afinal, o amor não diz que é para sempre.

Obrigada, Tânia Lamarca! A dança brasileira ganhou um inestimável e muito ansiado presente de Natal, um longa-metragem com características de um espelho para os que respiram a arte da dança em suas rotinas diárias, uma janela com vista panorâmica para todos os apaixonados amantes da dança.

E para os que ainda não viram, o filme está em sua terceira semana de exibição na sala 5 do cine Beiramar em Florianópolis com êxito de público e excelentes avaliações da crítica especializada e do jornalismo cultural. Também pode ser assistido em Porto Alegre, Curitiba, Foz do Iguaçu, São Paulo e Rio de Janeiro onde, em Outubro, fez seu lançamento nacional no Festival do Rio, dentro do Panorama do Cinema Mundial.

FICHA TÉCNICA:

Direção: Tânia Lamarca
Elenco:  Lavínia Bizzotto, Bruno Cezário, Ingra Liberato, Chico Caprario, Antônio Cunha, Renato Turnes
Roteiro: Tânia Lamarca
Produção: Tânia Lamarca
Trilha Sonora: Alberto Andrés Heller
Distribuição: Imagem Filmes
Gênero: Drama/Documentário
País: Brasil
Ano: 2012

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